Na sociedade em rede
Carta Rede Social 170 (14/08/08)
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Imaginamos que vivemos em sociedades livres, mas, na verdade, vivemos em campos sociais perturbados por programas verticalizadores.
Carta enviada para 10.221 destinatários
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‘Carta Rede Social’, ex-‘Carta Capital Social’ (e antiga ‘Carta DLIS’) é uma comunicação pessoal de Augusto de Franco enviada quinzenalmente, desde 2001, para milhares de agentes de desenvolvimento e outras pessoas interessadas no assunto, do Brasil e de alguns países de língua portuguesa e espanhola. A presente 'Carta Rede Social 170' está sendo encaminhada para 10.207 destinatários.
Prezado(a) Leitor(a)
Um dos motivos da nossa dificuldade para compreender as redes vem do fato de que vivemos há seis mil anos em um tipo de civilização que tem o Estado como centro de controle. Não nos damos conta disso, mas vivemos, como os antigos sumerianos, em um cosmos social ordenado top down por um padrão vertical de organização capaz de se replicar. Nas primeiras cidades fortificadas e muradas, as cidades-Estado-Templo da velha Mesopotâmia, como registram as famosas “Tábuas de Fara”, as pessoas não apenas serviam, mas viviam no Templo (como observou o insuspeito Karl Wittfogel, em 1957, no clássico Oriental Despotism: A Comparative Study of Total Power).
Observei sobre isso, no meu Capital Social (2001), que o muro da cidade não separava somente o conterrâneo do estrangeiro, porém o sagrado do profano. Ao fazer isso, promovia uma equivalência de status entre os conceitos de outro e profano. Criava-se assim um sulco para o futuro (uma deformação no campo social): o muro como símbolo do que afasta e separa do outro (o qual pode profanar ou tornar impuro o próprio modo de ser). Ali foi gerado o tronco, talvez o principal, da família de programas verticalizadores (1).
Imaginamos que vivemos em sociedades livres (que só o seriam se estivéssemos em redes distribuídas), mas, na verdade, vivemos em campos sociais perturbados por programas verticalizadores.
A justificativa hobbesiana para a existência do Estado é a justificativa universal da ordem. Mas o que é ordem na rede? E o que é liberdade? Do ponto de vista da rede, ordem pode ser interpretada como anisotropia e liberdade como isotropia. Fundamentalmente é a topologia da rede que impede ou permite que um padrão possa ser propagado em todas as direções. Meios anisótropos (que não mantêm as mesmas propriedades em todas as direções) selecionam alguns caminhos em detrimento de outros. É assim que atuam as normas e as instituições. Elas são feitas para favorecer alguns fluxos e impedir outros. Sim, é a forma de fluir (na verdade, de não-deixar fluir) que caracteriza a burocracia.
As singularidades no espaço-tempo dos fluxos que vão aparecer como instituições são como deformações em um campo de forças. A questão é saber como a deformação no campo altera o padrão, ou seja, como um padrão emitido por um nodo pode chegar até outro nodo.
Isso é o que vemos quando colocamos os “óculos de ver rede”. Só então começamos a perceber as conexões ocultas que configuram o que chamamos de ‘social’. Essa visão é indispensável para impulsionar novos comportamentos que sejam capazes de subverter a Matrix (aquela mesma do filme dos irmãos Wachowski – o mainframe cuja missão é: ‘controle’). Aliás, uma boa imagem para controle é a daquele “muito antigo e perigoso” programa verticalizador (ou centralizador, é a mesma coisa), chamado no filme de “O Merovíngio” (intepretado pelo ator Lambert Wilson), que aprisiona um hub, “O Chaveiro” (Randall Duk Kim): o programa que tem as chaves para abrir uma infinidade de portas. Portas que foram colocadas – é óbvio – para obstruir caminhos.
Se sabemos isso, então já sabemos o que é necessário fazer: distribuir o que foi centralizado ou descentralizado (quer dizer, multicentralizado). Desobstruir caminhos. Estabelecer atalhos entre clusters. Incluir nodos.
Trata-se, portanto, basicamente, de conectar pessoas com pessoas. De aumentar a conectividade da rede social. E de trabalhar para tornar cada vez mais distribuída essa rede.
Quase tudo que organizamos segundo um padrão-mainframe poderia ser organizado segundo um padrão-network. Quase tudo, não tudo: os mecanismos de comando-e-controle, por exemplo, não podem.
Isso significa que é possível ensejar novas formas de ordenação por regulação emergente, que não dependam do controle (que é sempre a introdução de uma ordem de cima para baixo), quer dizer, que é possível fazer isso em tudo aquilo que não exija controle.
A seguir vamos ensaiar algumas visões inovadoras – obtidas quando se coloca os “óculos de ver redes” – sobre a sociedade em rede. (Este, aliás, é o tema do meu novo livro, que afinal está entrando agora no prelo, depois de uma mudança radical de projeto: não se chamará mais “A Rede” e sim “Escola de Redes: Novas Visões”).
A chamada sociedade em rede ou sociedade-rede não é uma novidade que está nascendo para substituir a sociedade hierárquica. Ela é (sempre) a (mesma) sociedade que se manifesta assim, como rede distribuída, toda vez que não está rodando programas verticalizadores. Ocorre que, ultimamente, os meios horizontais de conexão transitiva estão ganhando uma velocidade jamais experimentada. De sorte que as fluições distribuídas estão se espalhando: como a vida, estão conquistando o globo: não pelo combate e sim pela formação de redes (como escreveram Lynn Margulis e Dorion Sagan, em 1986, em Microcosmos). E estão cobrindo o planeta como uma pele (uma imagem riquíssima de Don Tapscott e Anthony Williams, em 2006, em Wikinomics). Dessarte, o ‘social’ (naquele sentido especialíssimo que Maturana empresta ao termo) está podendo se manifestar com mais freqüência. E essa freqüência está aumentando, em um ritmo alucinante.
Normas e valores estão sendo assim rapidamente modificados. Novos scripts estão se infiltrando (se instalando como vírus) e alterando antigos programas. Novos papéis sociais – como os desempenhados pelos hubs, pelos inovadores e pelos netweavers – estão surgindo, mudando a própria idéia de sucesso: na rede você é importante na medida da sua capacidade de exercer uma dessas três funções e não do seu exibicionismo, da sua desenvoltura em usar os semelhantes como instrumentos para a sua projeção ou da sua auto-reclusão estudada, baseada em uma opinião muito favorável sobre si mesmo ou baseada no seu currículo.
Fama, glória, riqueza, poder, conhecimento atestado por títulos – que são sinais de sucesso em outros tipos de sociedade – tendem a não ser os atributos mais importantes na sociedade-rede.
De qualquer modo, a rede é uma oportunidade ótima para quebrar o poder das burocracias do conhecimento. Na verdade para quebrar o poder de qualquer burocracia. ‘Quebrar’ talvez não seja a melhor palavra, pois se trata de desobstruir o que foi entupido.
Quanto mais ocorrem eventos de desobstrução, mais a sociedade vai se comportando como uma entidade que aprende (pois o que chamamos de aprendizagem é sempre a abertura de novos caminhos). E mais a sociedade vai se desenvolvendo (pois o que chamamos de desenvolvimento é a mesmíssima coisa: a abertura de novas oportunidades... de conexão).
Isso tem um efeito direto sobre certas instituições estruturadoras deste velho mundo em que estamos vivendo nos últimos seis milênios, como o Estado e a família e que constituem, não por acaso, os mais antigos programas verticalizadores que se cristalizaram como instituições obstrutoras de fluxos e, assim, como os agentes mais perigosos para a emergência de uma sociedade em rede. A esses se poderia acrescentar ainda a escola e a igreja. São – todas essas – instituições de controle e de adaptação a partir da inculcação e da reprodução de sistemas de valores, crenças, normas e costumes que atuam por meio da demonização e da repressão ao caos no que tange ao livre exercício da sexualidade e da imaginação criadoras.
Estado e família. Em uma sociedade que adquire, cada vez mais, a morfologia e a dinâmica de rede, instituições como Estado e família tendem a se modificar profundamente. Não pode ser por acaso que todas as organizações hierárquicas valorizem tais instituições, encarando-as como se fossem estruturas eternamente indispensáveis à vida humana em sociedade, a despeito da forma atual de Estado – o Estado-nação – já estar mostrando sua crescente inadequação à realidade contemporânea. E, conquanto o assunto seja quase proibido, a forma atual de família – a família monogâmica – também é um problema. Diga-se o que se quiser dizer, do ponto de vista da rede a família é um circuito fechado de relações (poder-se-ia dizer, uma estrutura que privatiza capital social em detrimento da sociedade). Ou, dizendo de outra maneira: a família desconecta você da sociedade. Assim, essa história de família como “célula-máter” da sociedade vale apenas na medida do grau de hierarquização e de autocratização da sociedade.
O elogio à família chega ao paroxismo por parte de organizações que, curiosamente, são compostas por pessoas que optaram por não constituir família (como a Igreja Católica, que, do ponto de vista estrutural, é uma igreja – veja só! – de hierarcas solteiros: os bispos).
Assim como o patriotismo – segundo o tão citado dito de Samuel Johnson – é “o último refúgio dos canalhas” (“patriotism is the last refuge of a scoundrel”), o elogio à família (incluindo as formas degeneradas de familismo, como a Máfia e seus sucedâneos corporativos legais que constituem, a partir da modernidade, formas aceitas de banditismo, como os sindicatos e os partidos que atuam como verdadeiras gangues políticas) freqüentemente costuma estar sempre presente nos discursos de todo tipo de patifes que se especializaram em exaltar a família. Mas a observação cuidadosa revela que pessoas que falam muito de família, babando preceitos morais sobre as virtudes familiares e outras besteiras como a formação do caráter a partir do berço, não raro acabam se revelando indivíduos imorais em vários sentidos.
Novas formas de Estado e de família vão surgir na sociedade-rede. Castells (1999) imagina que em uma sociedade-rede o Estado também deverá se transformar em um Estado-rede (2). De qualquer modo, o mainframe que conhecemos com o nome de Estado tende a desaparecer como tal (quer dizer, com a estrutura e a dinâmica que teve até hoje) em uma sociedade-rede.
Quanto às novas famílias, talvez se possa dizer que elas tenderão a ser grupos de convivência baseados cada vez mais na escolha do que na consanguineidade ou na herança genética. Afinal, do ponto de vista genético, somos mesmo, todos nós, apenas uma grande família (3).
Escola e igreja. As escolas constituem um capítulo à parte. Embora se declarem instituições laicas, são, no fundo, igrejas; ou seja, ordens hierarquicas (sacerdotais) que decidem o que as pessoas devem (saber) reproduzir. Graus de aprendizagem (na verdade, de ensino) são ordenações: medem a sua capacidade de replicar uma determinada ordem. Não é por acaso que a educação a distância encontrou fortíssima resistência na academia. Pelos mesmos motivos, processos e programas educacionais extra-escolares (como o homeschooling, o communityschooling, o unschooling e o autodidatismo) são duramente combatidos pelas corporações de professores, que argumentam – sem se darem conta de que, com isso, estão apenas revelando seu caráter sacerdotal – que não se pode deixar a educação nas mãos de leigos...
Todo aprendizado depende da capacidade de estabelecer conexões e reconhecer padrões. Nos dias de hoje, uma criança com acesso à Internet em casa e noções rudimentares de um ou dois idiomas falados por grandes contingentes populacionais (como o inglês ou o espanhol, por exemplo), já é capaz de aprender muito mais – e com mais velocidade – do que um jovem com o dobro da sua idade que, há dez anos, estivesse matriculado em uma instituição de ensino altamente conceituada. Se souber ler (e interpretar o que leu), escrever, aplicar conhecimentos básicos de matemática na solução de problemas cotidianos e... banda larga, qualquer um vai sozinho. Ora, isso é terrível para os que querem adestrar as pessoas com o propósito de fazê-las executar certos papéis predeterminados. Isso é um horror para os que querem formar o caráter dos outros e inculcar seus valores nos filhos alheios.
Em uma sociedade-rede, a educação é uma conseqüência dos meios interativos disponíveis na rede. São esses meios que conformam ambientes sociais (clusters) capazes de ensejar aquele tipo de interação caracterizada como educativa. Ou seja: a escola é a rede! (Aliás, esse foi o lema escolhido para o logo da Escola-de-Redes).
Dominar a leitura e a escrita, saber calcular e resolver problemas, ter condições de compreender e atuar em seu entorno social, ter habilidade para analisar fatos e situações e ter capacidade de acessar informações e de trabalhar em grupo, são geralmente apresentados como objetivos do processo educacional básico. No entanto, para além, muito além, disso, os novos ambientes educativos em uma sociedade-rede tendem a valorizar outras competências ou habilidades, como a de identificar homologias entre configurações recorrentes de interação que caracterizam clusters (e, conseqüentemente, reconhecer potenciais sinergias e aproveitar oportunidades de simbiose), saber não apenas acessar, mas produzir e disseminar informações e conseguir não apenas trabalhar em grupo, mas fazer amigos e viver e atuar em comunidade.
Sociedades em que as redes são as escolas serão sociedades desescolarizadas, como queria o visionário Ivan Illitch (1971), infelizmente em uma época em que as pessoas não podiam captar plenamente o alcance de sua visão inovadora (4).
De certo modo, tudo o que parece realmente necessário para a convivência ou a vida em rede, como a educação para a democracia, a educação para o empreendedorismo e para o desenvolvimento ou a sustentabilidade, não comparece nos currículos das escolas. Não pode ser por acaso. Isso talvez corrobore a constatação de que a escola é uma das instituições que mais resistem ao surgimento da sociedade-rede.
As igrejas – que, como vimos, em certo sentido também são escolas – constituem estruturas sacerdotais erigidas por ideólogos para transformar certas mensagens fundantes de novos padrões de interação com o mundo (quase sempre, portanto, realmente inovadoras) em códigos doutrinários, estabelecendo privilégios e preferências de acesso e autorizações de interpretação (conferidos a um oligopólio de intermediários: os sacerdotes).
Não é provável que desapareça a religiosidade (ou a espiritualidade), mas as religiões (que são programas desenhados para converter fé em crença e para repetir passado; ou seja, para substituir a abertura incerta de novos caminhos para o futuro pela segurança de estradas já pavimentadas pela crença; ou ainda, como escreveu Jung, em linguagem simbólica, para proteger o homem da experiência de Deus...), perderão influência como macrocomplexos culturais porquanto tenderão a ocupar (e terão que dividir) um espaço compartilhado com outras marcas ou códigos de identidade (como as atuais nações, por exemplo, quando o Estado-nação, em um mundo crescentemente glocalizado, não puder mais exercer o seu papel de tronco-geratriz de programas verticalizadores). Entretanto, novas formas pós-religiosas de espiritualidade poderão surgir.
Empresas e organizações da sociedade civil tendem a continuar existindo e se multiplicando. Em uma sociedade-rede as empresas deixarão de ser unidades administrativo-produtivas isoladas para adquirir a feição de comunidades de negócios formadas dentro das redes de seus stakeholders. Serão, portanto, mais móveis ou flexíveis. E mais acessíveis aos empreendedores. Com a desmaterialização e a disponibilização dos meios de produção – em uma sociedade em que os capitais humano e social passam a ser fatores econômicos importantes e cada vez mais decisivos – a empresa será mais fruto da capacidade empreendedora (de quem tem um sonho e quer realizá-lo) do que da capacidade de acumular capital físico e financeiro para alugar outras pessoas (que têm, então, que abrir mão do seu próprio sonho para trabalhar em prol da realização do sonho alheio) como ainda ocorre hoje. Isso coloca desafios tremendos para as empresas que quiserem aumentar suas chances de sustentabilidade na passagem de uma sociedade hierárquica para uma sociedade-rede, dentre os quais o principal é aprender a fazer a gestão democrática da rede dos seus stakeholders, iniciando a transição do seu padrão de organização – de mainframe para network – e democratizando seus procedimentos internos e externos.
As organizações da sociedade civil, por sua vez, estão diante de desafios semelhantes. Se quiserem entrar na corrente da mudança, ao invés de resistirem a ela, devem estimular a articulação de redes voluntárias de cidadãos, que possam rodar softwares livres (latu sensu), ao invés de se constituirem como organizações hierárquicas fechadas para manter em suas mãos programas proprietários, como ainda ocorre com a nova burocracia associacionista das ONGs, que muitas vezes aprisiona, ao invés de libertar, as forças criativas e empreendedoras das comunidades.
Até a ‘Carta Rede Social 171’ e um abraço do
Augusto de Franco
augusto@augustodefranco.com.br
14 de agosto de 2008.
Conecte-se à Escola-de-Redes, uma rede de pessoas dedicadas à investigação teórica e à disseminação de conhecimentos sobre redes sociais e à criação e transferência de tecnologias de netweaving. Uma boa oportunidade para conhecer com profundidade o que são redes sociais.
Para saber mais clique em http://www.escoladeredes.org
Para se conectar clique em http://escoladeredes.wordpress.com
Para ler e comentar as ‘Cartas Rede Social’, ex-‘Cartas Capital Social’ (e antigas ‘Cartas DLIS’) e outros textos de Augusto de Franco, publicados a partir do final de 2005, clique em www.augustodefranco.com.br
Notas e referências
(1) Do ponto de vista da topologia da rede social, a melhor denominação seria ‘programas centralizadores’, pois que a obstrução, a separação e a exclusão surgem com a centralização. No entanto, usamos aqui a expressão ‘programas verticalizadores’ para enfatizar uma característica desses programas, que se materializou como verticalização nas construções humanas e na criação de um imaginário simbólico segundo o qual o céu – a morada dos deuses – fica em cima ou acima (em Jericó, há 8 mil anos, não havia construções que se destacassem das demais – privilegiando a direção vertical – como depois surgiram nas cidades mesopotâmicas feitas de muros e escadas que eram originalmente moradas de deuses, cujos alojamentos ficavam no topo). Doravante vamos designar esses programas indistintamente, como verticalizadores ou centralizadores.
Não é o caso de discutir aqui como surgiram os programas verticalizadores na terra dos homens. Mas a visão das redes sociais pode jogar alguma luz sobre a controvérsia – e essa é a única razão da presente nota.
Existem várias hipóteses. As normalmente aceitas – dada a hegemonia do pensamento econômico e não da visão ecológica – replicam um modelo explicativo baseado na escassez/abundância de recursos sobrevivenciais. Procuram as condições materiais da dominação social (a partir de condições naturais de escassez) em vez de buscarem as suas origens espirituais, ou seja, as razões que levaram à produção artificial de escassez.
Na verdade, quando falamos das origens espirituais da dominação social queremos dizer, sob um certo aspecto (e vou me restringir a esse aspecto aqui), que a estrutura de poder vertical no mundo – da qual o complexo Tempo-Palácio é o símbolo mais eloquente (e a Cidade-Estado-Templo sumeriana a sua materialização) – não pode ter seu surgimento "explicado" pelo modelo escassez/abundância de recursos sobrevivenciais. Houve, por alguma razão, uma produção artificial de escassez... não uma escassez natural. A escassez só é vista assim – como falta de recursos sobrevivenciais a que cabe suprir por qualquer meio, por uma intervenção antrópica desarmonizante, como a violência inclusive - pelo ego do predador. Para um simbionte, integrado aos outros elementos do ambiente, trata-se de um fluir autopoiético: uma espécie que reduz sua população significa um rearranjo no sistema que aumenta outras populações. O problema, portanto, é descobrir como começou a produção artificial de escassez e não tentar explicar a escassez.
Por outro lado, do ponto de vista do sistema autoregulador planetário (Gaia, que seja), escassez e abundância são momentos intermitentes do seu fluir. Para o sistema geral, nada disso existe em si e por si. Existe apenas um movimento de fazer e refazer, continuamente, congruências múltiplas e recíprocas com o meio (aquilo que chamamos de vida ou sustentabilidade).
Coleta e caça, agricultura e pastoreio são formas de interagir ou padrões de interação dentro de ecossistemas. Não é o caso de inculpar um deles ou responsabilizá-lo pela produção artificial de escassez.
O poder (vertical) - aquilo que obstrui, separa e exclui - não nasce em virtude de qualquer tipo de condicionamento material ou pela inata capacidade do homem de ser hostil, por uma suposta natureza inerentemente competitiva ou mesmo pela preguiça. Ou seja, não é uma conseqüência da natureza humana (seja lá o que isso for), tal como foi assumido pelos pressupostos (muitas vezes não declarados) dessa moderna religião laica que se chama economia. Observando como surge a cidade Estado-Tempo na antiga Suméria, somos levados a pensar – pela ausência de indícios de uma evolução explicável das aldeias agrículas neolíticas anteriores que existiam naquela região – que deve ter havido uma mudança súbita, que o sistema mudou de estado repentinamente a partir de uma configuração particular que se constelou, criando um precedente. Não há como saber o que de fato ocorreu. Mas isso não nos desobriga de inventar explicações inteligentes ao invés de repetir as crenças derivadas da visão hobbesiana.
As cidades mesopotâmicas que se erigiram como Estado-Templo eram moradas verticais construídas para os deuses, não para os homens. Cumpre entender bem o meaning de deuses para os sumérios (os Dingir, que só foram chamados de deuses, muito tempo depois, pelos gregos). Esses deuses mesopotâmicos que estão na origem do poder vertical não têm nada a ver com a nossa visão atual de deus (ou de deuses) e, muito menos, com o deus humanizado da tradição judaico-cristã. Eles são hierarcas-guerreiros, intrigantes, genocidas, carnívoros, predadores e não pais amorosos ou piedosos pastores. Em certo sentido, mais do que sobre-humanos, são anti-humanos (e isso diz muita coisa). Do ponto de vista das redes – tal como o adotamos aqui – eles não são pessoas, são programas meméticos verticalizadores que foram gerados em um cluster que se constelou com uma configuração particular e que durou o tempo suficiente para conferir-lhes uma capacidade autoreplicadora.
Uma cidade para os homens é horizontal (veja-se, por exemplo, a já citada Jericó, que era muito habitada há 8 mil anos). Lá não se viam construções mais altas do que outras. Uma cidade para os deuses é vertical, como as cidades sumerianas onde surgiu a monarquia (Kish, por exemplo, pode ter sido a primeira; mas o padrão é o mesmo em Uruk, Lagash etc.), onde o espaço urbano fica polarizado por uma construção mais alta do que todas as demais.
É preciso fazer um grande esforço para explicar tudo isso a partir da abundância ou escassez de recursos sobrevivenciais, como tenta fazer, até hoje, o pensamento econômico de um lado e, de outro, o pensamento evolucionista darwinista, ambos herdeiros de Hobbes (o fundador moderno da teoria de legitimação da estadocracia). Segundo essas hipóteses a dominação social teria surgido a partir da divisão do trabalho e da especialização de funções que colocou os administradores do excedente econômico comunal em uma posição privilegiada, acima das posições dos demais. Estes, por sua vez, teriam privatizado parte do excedente aumentando seu poder ao passo em que se apropriavam dos meios de produção (sobretudo a terra). E daí teria vindo todo resto. Tal modelo explicativo é corroborado pela interpretação de que a natureza seria um campo de luta incessante pela vida, onde vence o mais forte. Parece óbvio que, aqui, a visão do nascente mercado capitalista inglês da época de Darwin, com uma concorrência exacerbada, foi projetada na natureza. O que era "selvagem" – no sentido pejorativo – era aquele mercado (ou aquele capitalismo) e não a vida natural.
Mas voltando ao precedente sumeriano, é preciso ver o que aconteceu em Eridu (a cidade mais antiga), tentar advinhar a dinâmica da sua rede social para entender como simples construções humanas (que são materializações de fluxos) passaram a ser substituídas por construções divinas... Tudo isso que a gente vê na arquitetura urbana são apenas congelamentos (coagulações) do que acontece em outro mundo (ou em outro estado). A hipótese com a qual trabalho – e que não vou desenvolver aqui – é a de que as redes sociais se realizam em outro mundo (o espaço-tempo dos fluxos) e prefiguram realidades que vemos neste mundo físico: uma rua é a materialização de uma conexão que congela um fluxo e, mais do que isso, que cria um sulco para aprisionar o futuro de outros fluxos. Sim, para ir de A a B as pessoas têm de passar por ali, pois a rua já está construída, não é mesmo?
(2) Castells explica o surgimento do Estado-rede como decorrente da necessidade de novos mecanismos de coordenação. Segundo ele, “as estratégias do Estado-nação para aumentar a sua operacionalidade (através da cooperação internacional) e para recuperar sua legitimidade (através da descentralização local e regional) aprofundam sua crise, ao fazê-lo perder poder, atribuições e autonomia em benefício dos níveis supranacional e subnacional. Daí a importância de que o processo de redistribuição de atribuições e recursos seja acompanhado por mecanismos de coordenação entre os diferentes níveis institucionais em que se desenvolve a ação dos agentes políticos. A fórmula político-institucional que parece mais efetiva para assegurar essa coordenação é o que denomino Estado-rede”. Para ele, “Estado-rede é o Estado da era da informação, a forma política que permite a gestão cotidiana da tensão entre o local e o global”. Cf. Castells, Manuel (1999). “Para o Estado-rede: globalização econômica e instituições políticas na era da informação” in Bresser Pereira, L.C., Wilheim, J. e Sola, L. Sociedade e Estado em Transformação. Brasília: ENAP, 1999.
(3) Cf. Pena, Sérgio Danilo (2007). “A grande família” in Ciência Hoje OnLine (13/04/07): http://cienciahoje.uol.com.br/68695
(4) Illicht, Ivan (1971). Deschooling society. New York: Marion Boyars, 1971. O original está disponível on line no link abaixo:
http://en.wikiversity.org/wiki/Ivan_Illich:_Deschooling_Society
Existe tradução brasileira: Sociedade sem escolas. Petrópolis: Vozes, 1985. A íntegra já está disponível no link abaixo:
http://www.4shared.com/file/57047554/c83bde51/Ivan_Illich_-_Sociedade_sem_Escolas.html